sexta-feira, 22 de março de 2013

Você é Hands On?


Por Max Gehringer
Colunista da Revista EXAME


Vi um anúncio de emprego. A vaga era de Gestor de Atendimento Interno, nome que agora se dá à Seção de Serviços Gerais. E a empresa exigia que os interessados possuíssem – sem contar a formação superior – liderança, criatividade, energia, ambição, conhecimentos de informática, fluência em inglês e não bastasse tudo isso, ainda fossem HANDS ON.
Para o felizardo que conseguisse convencer o entrevistador de que possuía essa variada gama de habilidades, o salário era um assombro: 800 reais. Ou seja, um pitico. Não que esse fosse algum exemplo fora da realidade. Ao contrário, é quase o paradigma dos anúncios de emprego.
A abundância de candidatos permite que as empresas levantem cada vez mais a altura da Barra que o postulante terá de saltar para ser admitido.E muitos, de fato, saltam. E se empolgam. E aí vêm as agruras da super-qualificação, que é uma espécie do lado avesso do efeito pitico…Vamos supor que, após uma duríssima competição com outros candidatos tão bem preparados quanto ela, a Fabiana conseguisse ser admitida como gestora de atendimento interno. E um de seus primeiros clientes fosse o seu Borges, Gerente da Contabilidade.

Seu Borges:
— Fabiana, eu quero três cópias deste relatório.
Fabiana:
— In a hurry!
Seu Borges:
— Saúde.
Fabiana:
— Não, Seu Borges, isso quer dizer ‘bem rapidinho’. É que eu tenho fluência em inglês. Aliás, desculpe perguntar, mas por que a empresa exige fluência em inglês se aqui só se fala português?
Seu Borges:
— E eu sei lá? Dá para você tirar logo as cópias?
Fabiana:
– O senhor não prefere que eu digitalize o relatório? Porque eu tenho profundos conhecimentos de informática.
Seu Borges:
— Não, não.. Cópias normais mesmo.
Fabiana:
– Certo. Mas eu não poderia deixar de mencionar minha criatividade. Eu já comecei a desenvolver um projeto pessoal visando eliminar 30% das cópias que tiramos.
Seu Borges: —
Fabiana, desse jeito não vai dar!
Fabiana:
– E eu não sei? Preciso urgentemente de uma auxiliar.
Seu Borges:
– Como assim?
Fabiana:
– É que eu sou líder, e não tenho ninguém para liderar. E considero isso um desperdício do meu potencial energético.
Seu Borges:
– Olha, neste momento, eu só preciso das três cópias.
Fabiana:
– Com certeza. Mas antes vamos discutir meu futuro…
Seu Borges:
— Futuro? Que futuro?
Fabiana:
— É que eu sou ambiciosa. Já faz dois dias que eu estou aqui e ainda não aconteceu nada.
Seu Borges:
– Fabiana, eu estou aqui há 18 anos e também não me aconteceu nada!
Fabiana:
— Sei. Mas o senhor é hands on?
Seu Borges:
— Hã?
Fabiana:
– Hands on….Mão na massa.
Seu Borges:
— Claro que sou!
Fabiana:
— Então o senhor mesmo tira as cópias. E agora com licença que eu vou sair por aí explorando minhas potencialidades. Foi o que me prometeram quando eu fui contratada.

Então, o mercado de trabalho está ficando dividido em duas facções:
1 – Uma, cada vez maior, é a dos que não conseguem boas vagas porque não têm as qualificações requeridas.
2 – E o outro grupo, pequeno, mas crescente, é o dos que são admitidos porque possuem todas as competências exigidas nos anúncios, mas não poderão usar nem metade delas, porque, no fundo, a função não precisava delas.

Alguém ponderará – com justa razão – que a empresa está de olho no longo prazo: sendo portador de tantos talentos, o funcionário poderá ir sendo preparado para assumir responsabilidades cada vez maiores.
Em uma empresa em que trabalhei, nós caímos nessa armadilha. Admitimos um montão de gente super qualificada. E as conversas ficaram de tão alto nível que um visitante desavisado confundiria nossa salinha do café com a Fundação Alfred Nobel.
Pessoas super qualificadas não resolvem simples problemas!
Um dia um grupo de marketing e finanças foi visitar uma de nossas fábricas e no meio da estrada, a van da empresa pifou. Como isso foi antes do advento do milagre do celular, o jeito era confiar no especialista, o Cleto, motorista da van. E aí todos descobriram que o Cleto falava inglês, tinha informática e energia e criatividade e estava fazendo pós-graduação… só que não sabia nem abrir o capô. Duas horas depois, quando o pessoal ainda estava tentando destrinchar o manual do proprietário, passou um sujeito de bicicleta.
Para horror de todos, ele falava ‘nóis vai’ e coisas do gênero. Mas, em 2 minutos, para espanto geral, botou a van para funcionar. Deram-lhe uns trocados, e ele foi embora feliz da vida. Aquele ciclista anônimo era o protótipo do funcionário para quem as Empresas modernas torcem o nariz:

O QUE É CAPAZ DE RESOLVER, MAS NÃO DE IMPRESSIONAR. 


Acredito que muitos já passaram, passam ou ainda vão passar por situação semelhante.

Gestores necessitam decidir que tipo de profissional a empresa necessita:
Os que resolvem e impactam no negócio, estimulam o ambiente, compartilham sua bagagem ou caso não tenham estão dispostos aprender com os demais para contruir a sua ou aqueles profissionais que impressionam mas não resolvem nada de fato.

Há necessidade conciliar estes dois profissionais de forma harmônica em um só, portanto valorizem as pessoas que trabalham com você ou para você; criem possibilidades, oportunidades e desafios que condizem com elas, o mercado de trabalho agradece e você verá notariamente o efeito positivo causado!


“Você consegue o melhor dos outros quando você dá o melhor de você mesmo.” — Harry Firestone

  

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